O famoso, mas desconhecido, Kuragehime

kuragehimeTítulo contraditório? A redatora explica.

Você provavelmente conhece Kuragehime. Provavelmente já tenha ouvido falar do anime de 2010, talvez até tenha assistido, ou então visto o filme live action que é mais recente, de 2014. A obra em si é famosa e de uma autora respeitada, mas, vamos ser sinceros: você já leu o mangá? Posso estar sendo prepotente, porém acredito que a maioria das pessoas que fazem parte do nicho conhecem o título de modo superficial. Ele não chega aos pés de Chihayafuru, por exemplo, quando se trata de repercussão, apesar das duas obras serem da mesma demografia, então… Por quê? Aliás, o que diferencia tanto um título de outro? Ambas são ótimas histórias, com bom roteiro, personagens cativantes e o traço… Ooops! O traço! Seria esse o grande motivo para o mangá não ter tanta atenção assim? Nessa resenha estão contidos todos os motivos para dar uma chance para Kuragehime e largar de vez a péssima mania de escolher uma obra só pelo fator “padrão de beleza”.

Kuragehime Resenha Review Shoujo ON Josei (1)A HISTÓRIA

Kuragehime (ou Princess Jellyfish) é um mangá de comédia que conta a história de Tsukimi Kurashita – uma garota tímida que ama águas-vivas e sonha em se tornar uma ilustradora – e sua nova vida em Tóquio, mais precisamente em Amamikuzan, um prédio no qual vivem várias otomes (por assim dizer) e onde homens são proibidos. Certo dia, Tsukimi conhece uma mulher muito bonita e bem vestida que, mais tarde descobre ser Kuranosuke Koibuchi, um rapaz que se veste de mulher para fugir de suas responsabilidades.

CONSIDERAÇÕES TÉCNICAS

Kuragehime é um mangá josei de Akiko Higashimura publicado na revista Kiss, da editora Kodansha. A obra ganhou uma adaptação em anime no ano de 2010, um filme live-action em 2014 e também conta com mangá spin-off chamado Kuragehime Gaiden – Barakura – Bara no Aru Kurashi, publicado em 2012 com apenas dois volumes. O mangá está em andamento com 15 volumes publicados, porém seu término já foi anunciado.

Kuragehime Resenha Review Shoujo ON Josei (3)COMENTÁRIOS GERAIS

Kuragehime a primeiro momento tem de tudo para ser um novo clichê seguindo os passos de “Beth, a Feia”; moda, estética, uma protagonista que não segue os padrões de beleza da sociedade e um garoto que está inserido no mundo “fashion”. O esperado de uma história assim seria a transformação do patinho feio para a linda princesa, a garota que se adapta facilmente com a maquiagem, roupas de grife e que não volta mais atrás da antiga “eu”. Mas não é assim. Kuranosuke transforma Tsukimi em uma mulher mais atraente em vários momentos, porém a mesma não se acostuma, o que faz com que a mudança não seja permanente. A personagem não transforma seu exterior, não adota o superficial como seu novo padrão de vida; Tsukimi vai além da beleza que é vista com os olhos e investe em algo diferente, ela investe em mudanças de pensamentos, de atitudes, mas sem perder a essência, tudo isso por alguém ter invadido sua zona de conforto. Esse é o verdadeiro encanto de Tsukimi.

Kuragehime Resenha Review Shoujo ON Josei (4)Kuragehime pode desapontar em um quesito. Para muitos, o romance continua sendo uma chave essencial em mangás shoujo e josei, porém nesse caso os acontecimentos são demorados. Apesar de existirem todos os elementos – protagonista, protagonista masculino principal, secundário e rival – a obra não se foca 100% neles. Afinal de contas, a história não é sustentada pelo quesito romance, tem todo um desenvolvimento por trás, conflitos que não são só amorosos e que são decisivos para a evolução dos personagens. Decepcionante para alguns, entretanto, quando a pitada de açúcar aparece fico extremamente satisfeita. E uma dica: se pensava em ler por ser fã do gênero romance, desista. Mesmo nesse aspecto Kuragehime não quer seguir os passos dos irmãos da demografia.

Acredito que nunca tenha pego um mangá no qual a autora consiga trabalhar tão bem o protagonista masculino quanto a feminina. Mesmo quando se trata de um personagem querido as autoras insistem em colocar uma certa “distância” como se isso fosse deixar o garoto mais atrativo, como se ser frio fosse sinônimo de ser sexy. A obra mostra o oposto, mostra que o protagonista, Kuranosuke, não é apenas importante para o papel masculino como também é para o feminino; no momento em que ele se transveste, ele assume a personalidade de protagonista forte que tanto gosto e admiro, inclusive as vezes fico me perguntando se Tsukimi é mesmo a principal do mangá. O fato é que acredito que Kuranosuke seja a verdadeira alma da obra.

Kuragehime Resenha Review Shoujo ON Josei (10)A característica que me incomoda em relação ao mangá é a mudança drástica de atitudes de um volume para o outro, sem explicação aparente. Tsukimi e as garotas que moram na mesma casa não aceitam homens, não toleram pessoas “estilosas” e estabelecem diversas regras de comportamento, porém mesmo sendo rigorosas com o tópico, as regras entram em desuso depois que Kuranosuke as inserem no mundo “real” de novo. Não tenho nada contra com o acontecimento em si, porém a autora não trabalha essa parte, fazendo com que precise ser subentendida pelo leitor.

Apesar do que comentei no parágrafo anterior, há algo que preciso destacar. Kuranosuke entra em uma reflexão sobre o mundo em que ele está e no que Tsukimi e as outras estão, pois até determinado momento elas são uma distração para o mesmo, são o diferencial para o estilo de vida superficial que levava, são pessoas diferentes que ele não esperava ter contato. Mas com essa aproximação ele é obrigado a deixar de pensar apenas em si mesmo e começar a se colocar no lugar das outras, afinal de contas, entrar na vida delas também foi sinônimo de jogá-las para fora de sua zona de conforto. Eu amo isso. Amo o fato da autora ter esse pensamento de que por serem dois grupos sociais distintos deveria haver uma reflexão, deveria haver um conflito e não apenas jogar que por esses mundos se misturarem seria só diversão. E amo ainda mais pelo fato dos personagens se aproximarem do quase humano, por terem o privilégio de raciocinar. É quase real.

Kuragehime Resenha Review Shoujo ON Josei (7)As amigas de Tsukimi que moram com ela em Amamizukan são personagens secundárias que colaboram para o alto teor de comédia da obra. Chieko, Mayaya, Banba, Jiji e até a misteriosa Juon Mejiro – moradora que se comunica com as outras através de bilhetes – trazem a tona muitos risos com suas vidas de otaku e NEETs. A história também conta com Shu Koibuchi e Shouko Inari – interesse amoroso da protagonista e rival, respectivamente -, ambos personagens secundários nos quais me aprofundarei um pouco mais que as primeiras ali em cima, simplesmente por acreditar que não são personagens plásticos. O primeiro não se destaca em quase nada, tem uma personalidade tímida, não faz sucesso com as mulheres e nem ao menos sabe como agir perto delas; já Shouko é uma mulher gananciosa, egoísta, que faz de tudo pelo seu trabalho e não deixa ser esmagada por ninguém. Shu tenta a partir de seus próprios métodos conquistar a garota que gosta, sem apelar para o fato de ter dinheiro, sem ser um completo idiota e ainda usa o recurso mais simples possível: sua paixão. Shouko, a partir do momento em que percebe o que sente, perde seu chão; todo a segurança da adversária se vai quando ela atinge um terreno desconhecido, no qual percebe que não é mais a dominante da situação, mas, ao contrário de tantas inimigas de shoujos e joseis, ela não briga sujo com Tsukimi por causa de homem! Uma rival admirável.

Kuragehime Resenha Review Shoujo ON Josei (6)AUTORA

Não, não escreverei uma biografia da autora, até porque existe o Wikipédia – e sério, não tem motivo, ao menos que esteja escrevendo para stalkers e fanáticos. Os parágrafos a seguir estão aqui, pois a autora também me fez comprar a história pela sua própria personalidade.

No final dos volumes de Kuragehime há o famoso “freetalk”, que diferente dos que Karuho Shiina usa, por exemplo, o de Akiko é formado por várias páginas. Me julgue, eu não leio freetalks. Mas com essa mangaká em si foi diferente, até porque no primeiro que ela desenha a autora confessa que assim como Tsukimi, a protagonista da série, houve uma época em que a mesma era fissurada por água-vivas. Por trás de toda essa bizarrice há uma narrativa ainda mais cômica sobre essa fase que passa, vale a pena conferir. Mas… o que realmente gostaria de falar sobre Akiko se encontra no próximo parágrafo.

Há um freetalk em específico que me chamou a minha atenção. No volume seis, a autora revela que Kuragehime está ganhando uma adaptação em anime. A princípio ela narra o acontecimento como um choque, pois não tinha esperanças de que sua série poderia ganhar uma animação, porém, ao contrário de como tantos mangakás reagiriam, ela não estava confiante. Sentia receio. Haviam duas preocupações que pairavam sobre a cabeça da autora, a primeira era sobre deixar a história nas mãos de pessoas que não conheciam água-vivas como ela; a segunda era se o character design do anime seria modificado drasticamente do desenho original. No final das contas, o diretor era tão apaixonado por água-viva quanto ela e o design dos personagens eram tão fiéis a sua arte que a mesma não soube dizer se havia desenhado aquilo ou se tinha sido um especialista.

Pode ser bobo, mas é por essa e outras razões que sinto que Akiko Higashimura é uma autora diferente, uma autora que pensa. Para quem não lembra, ou não sabe, essa mesma autora foi criticada pela sua obra mais recente, e cancelada, chamada Himozairu. A história basicamente narra a vida de um grupo de homens desempregados que treinam para serem melhores donos de casa. Dando ênfase aqui em uma frase: a autora desistiu de continuar a obra depois do segundo capítulo por críticas na internet em que diziam que era um mangá “depreciativo para homens”. O Japão é um país machista, sim ele é, ainda mais quando lembramos que obras como um Ookami Shoujo to Kuro Ouji se sobressaem e mais N títulos em que a mulher é submissa ao homem. Fazer o quê, “faz parte da cultura.” Então aceitar mangás machistas e sexistas tudo bem, mas quando se tem o oposto, as reações são negativas e cheias de críticas. Admiro essa autora, admiro mesmo tendo cancelado sua ultima série, porque, apesar de tudo, ela não se entrega a histórias idiotas que suas colegas da área fazem. Novamente: ela pensa. Uma pena ser desmotivada pela sociedade que a cerca.

Kuragehime Resenha Review Shoujo ON Josei (9)CONCLUSÃO

Antes de lançar essa resenha recebi um comentário no site sobre uma leitora pedindo para comentar sobre Kuragehime já que, de acordo com ela, a maioria das pessoas tinham conhecimento sobre a existência da obra, mas não tinham lido. O mais engraçado é que quando li o comentário a resenha já estava em andamento e trataria justamente do tópico “conhecer, mas desconhecer”.

Julgamos que o público de shoujo seja o mais próximo para acolher histórias do tipo, já que as demografias poderiam ser consideradas “irmãs”, porém há um péssimo costume no nicho em geral: escolher uma obra pelo traço. Ter um traço bonito já ganha pontos com o leitor, é mais fácil ver alguém comentando “vou ler, porque é bonito” do que ver algo como “vou ler, porque mesmo sendo feio parece interessante”.

Kuragehime Resenha Review Shoujo ON Josei (8)Kuragehime é um dos joseis mais vendidos do Japão. Além de ter se saído bem em seu país de origem a obra ainda é publicada na Itália, França, América do Norte e também tem licença no site da Crunchyroll. A obra poderia ser facilmente colocada no mesmo patamar de Chihayafuru e Kyou wa Kaisha Yasumimasu., então por que não há uma repercussão significativa por aqui? Como nosso mercado nacional crescerá se há “leitores” que na verdade só se interessam por adaptações animadas? Não incluo todo o nicho, sempre há exceções, porém dá para observar que a preguiça de ler, de correr atrás, da espera por uma “próxima temporada” parece estar impregnada na maioria das pessoas. Kuragehime não venderia hoje se viesse para o Brasil. Achismo? Talvez, nem nego, mas pertencer a demografia querida não significa sucesso em vendas, significa correr risco sem garantias de retorno. Então, quais seriam os joseis que deveriam vir para expandir o nosso mercado? Tem mais de um em mente ou é só aquele? Aquele é ótimo, mas ele não é o único. Quando se abre mão de apenas assistir, de apenas julgar pela aparência, não há só uma bolha de opções onde x e y são os existentes; ler e procurar outros títulos abre um leque de possibilidades onde x, y estão inclusos, mas junto deles há o alfabeto todo inserido.

Não se limite a um conteúdo, não limite seu mundo.

Anúncios

16 comentários sobre “O famoso, mas desconhecido, Kuragehime

  1. Lembro de ter visto o anime na época e de ter achado legal porém como é um anime que não fez tanto barulho e nem que traga visualizações pra sites de scan br, sabia que essa obra estava fadada a ser esquecida pelo público daqui. Uma pena que o Crunchy não disponibilize seus títulos da linha de mangás em português ainda…Como meu conhecimento em inglês ainda é muito baixo, não posso matar minha curiosidade sobre o mangá de Kuragehime.
    Fico feliz de ver algum review sobre essa obra! Ao menos deu pra matar um pouco da minha curiosidade sobre o andamento da história.

    Curtir

  2. Engraçado que esse post só teve dois comentários até agora. Engraçado, não é mesmo? Isso só reflete muito bem tudo que você disse no post sobre as pessoas julgarem joseis. E mostra que Kuragehime pode não ser tão conhecido assim como alguns acham só pelo nome.
    Acho que isso dá ainda mais força pra tudo que você usou nas suas opiniões sobre conhecerem tanto pelo anime e deixarem esse mangá maravilhoso de lado.
    Parabéns pela resenha, a mais completa que já vi até entre sites gringos, que tentaram quinhentas reviews depois do lançamento no mercado americano. Todas falharam. Até divulguei a sua em um grupinho gringo que participo.
    Espero ver mais textos seus de joseis por aqui, ou mesmo de obras não tão comentadas. Fica a minha dica para Paradise Kiss. Acho que iria amar!
    Um beijão, Miyuki!

    Curtido por 1 pessoa

    • Olá, Mariana! Curti seu comentário, porém achei que ao fazer isso simplesmente não seria o suficiente. Mas pra quê falar mais quando você já disse tudo? hauhuaha Então, só tenho a agradecer pelas palavrinhas carinhosas, continuarei escrevendo sim e espero trazer ainda mais conteúdo para cá. Obrigada por ter feito meu dia como redatora. Um beijão para você também e volte sempre!

      Ps: Meu namorado também falou que eu ia amar Paradise Kiss, daqui a pouco ele entra na fila “preferencial” de mangás para ler. XD

      Curtir

    • Não acho que está enrolado, muito pelo contrário. Na verdade o personagem que entrou só dá mais indícios de que a série está para terminar, como já foi noticiado um tempinho atrás. Até entendo o que você diz, e shoujo/josei sempre dá uma raiva quando tudo parece que vai acabar e as autoras começam a esticar. Mas acho que não será o caso de Kuragehime, uma vez que a autora sabe muito bem como conduzir sua obra até aqui.

      Curtir

  3. Que resenha linda e de um mangá mais lindo ainda! É até difícil falar de todas as qualidades de Kuragehime e você conseguiu expressar a maior parte do que eu sinto lendo a série. E me revolta como esse tipo de mangá acaba sendo encostado pela preguiça das pessoas de ficarem o resto de suas vidas esperando uma segunda temporada de um anime. Kuragehime é lindo e tem muitas lições de vida. Além disso é uma aula sobre uma personagem travesti que não é de orientação homossexual e que ensina muito os leitores a realidade de pessoas como ele. Sua resenha merece ser divulgada pelo mundo inteiro. hahahaha

    Curtir

  4. Miyuki, amaaando!
    Adoro Kuragehime e to super feliz que tu fez uma resenha dele❤
    Quando leio o mangá, tenho a mesma impressão que tu, que as personagens raciocinam e evoluem a medida que a história acontece e que os nossos dyvos protagonistas tem um desenvovlvimento proporcional na trama, o que me encanta!

    Sobra dona Akiko, tenho verdadeira paixão pela autora (que eu já gostava enquanto lia Kuragehime), mas foi lendo aquele mangá pseudo-auto-biográfico dela que o meu respeito e admiração por ela explodiram!!! O nome do mangá é Kakukaku Shikajika e TU DEVERIA LER! E RESENHAR!

    Beijos de luz

    Curtir

  5. Adorei a resenha, ótimo texto. Esse é um dos meus mangas prediletos pena que tá acabando. Os personagens são cativantes, super engraçados e extremamente humanos. A obra tinha tudo pra cair no clichê do betty a feia, como você mesmo falou no sinopse, mas vai além disso. Uma das coisas que mais estou gostando no manga é a crítica a industria da moda. Não se trata de uma critica apenas ao padrões de beleza, mas também a maneira como a industria em si funcionar, seja pela dificuldade de começar uma nova linha roupas ou pelo desperdício que grandes empresas causam.

    Curtir

  6. Pingback: Seiko Kotobuki: a personagem transgênero de Lovely Complex | Shoujo-ON!

  7. Kuragehime tem a estória mas fofis de todas, Tsukimi e Kuranosuke são tão amorzinho só vi o live action, ainda não tive tempo de ler o mangá mais gosto muito de kuragehime;

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s