Seiko Kotobuki: a personagem transgênero de Lovely Complex

LoveCom3 headerOu o que chamaríamos de “Lovely Complex – Volume 3 (Resenha)”.

Não se assustem com o título do post, essa é mesmo a resenha do terceiro volume de Lovely Complex! Ou algo assim. Na verdade, acabei optando por escrever essa matéria por dois motivos: me empolguei demais e de repente surgiram vários parágrafos na minha frente, e outra, é algo que as pessoas simplesmente resolvem ignorar. Pra que falar de Risa e Otani agora quando temos mais 14 volumes pela frente? Não, não estou menosprezando, mas não vou fazer como vários outros sites que resolveram ignorar a existência de Seiko.

AVISO: Não será tolerado nenhum tipo de comentário preconceituoso. Ao escrever sobre, mandaremos para o lixo sem dó.

Lovely Complex 3 Resenha Shoujo ON Panini (7)

Meu primeiro contato com LoveCom, como já disse anteriormente, foi com a adaptação em anime. Tal obra me fez ter um asco sobre a série, seja com a dubladora da protagonista ou com personagens que apareceram posteriormente, sendo mais específica, a personagem que aparece nesse volume do mangá: Seiko Kotobuki. Não bastava achar a voz da Risa irritante, naquele momento também achava a personalidade de Seiko insuportável. Entretanto, o tempo passa, mudei meu ponto de vista sobre n coisas diversas vezes e estou em um momento que me pergunto: “Até quando Aya Nakahara vai mostrar que a minha eu de anos atrás tinha uma visão tão errada?”.

Devo confessar que por ter lembranças vagas do anime, fiquei me questionando como lidaria com a Seiko nessa resenha. Falo isso porque não me recordava de como a autora tratava a garota, como construía sua identidade e a forma que desenvolvia sua trama. Não citaria sobre ela se a mangaká tratasse de forma rude, ou a simples efeito de humor; não citaria se fosse polêmico demais, mas… É errado. É errado não colocar a garota sob os holofotes quando Aya a trata da melhor maneira possível, quando dá destaque total para o fato de Seiko ser um menino, mas nunca ter se visto como tal. A maneira como ela joga isso para o leitor não é um “baque”, ela é delicada em suas escolhas e mostra que Lovely Complex não é só um romance que está lá para mostrar complexos bobos – como a altura de Otani e Risa são -, é para falar sério mesmo em tom de brincadeira.

Lovely Complex 3 Resenha Shoujo ON Panini (1)

Houve dois momentos que foram bem marcantes e que me levaram a pausas para “reflexões”, dois ótimos momentos, diga-se de passagem. O primeiro é quando Seiko diz para Risa e para Nobuko as seguintes frases: “Fiquem sabendo que eu nunca, em toda minha vida, me considerei homem! O que aconteceu foi que Deus errou alguns acessórios na hora que me fez!”. Essa parte foi absurdamente tocante para mim. Ela é uma personagem fictícia que traz uma carga do que é real; pessoalmente, nesse sentido não me importo com religião, com crenças e todas as outras coisas que apontem para uma pessoa o que deixa de ser certo ou errada na vida da mesma. Não ligo para futuras críticas – já que, tecnicamente, o assunto é tabu -, apoio o estilo de vida em que as pessoas são livres para seguirem como quiserem, se é isso que as fazem bem – e nada de confundir a frase com “se quiserem ser criminosos, que sejam”, estou falando de algo pessoal e, apenas, pessoal; aquilo que não vai causar mal para a sociedade.

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O segundo momento, vulgo importantíssimo, foi quando Seiko acaba sendo abordada por aquelas meninas fãs do Otani para perguntar se eles estavam namorando. Nessa parte tem justamente um déjà vu da protagonista, recordando-se de ouvir um “eu disse que o Otani nunca ia ficar com uma garota altona como essa” daquelas coisinhas (tsc). Gosto dessa parte por causa da jogada que a autora faz aqui; ela expõe abertamente para o leitor o fato de que não importa o tipo de padrão estético que as personagens obedeçam, sempre haverá uma crítica.

Esses capítulos me fizeram estimar Aya Nakahara. Lovely Complex foi lançado em 2001 – apenas há 15 anos atrás -, estamos em 2016 e a transsexualidade ainda não é o papo para famílias tradicionais discutirem na mesa na hora do jantar. Aliás, é só ver como nosso país é: homossexuais sempre estão cercados do estereótipo de “bichas loucas” ou “marias machos” a cunho de piadinhas que são supostamente brincadeiras para entreter o público – só lembrar que já existiram programas da TV aberta que bancavam os “engraçadões” utilizando tais acessórios. É aqui que Nakahara mostra seu show: quando ela usa Seiko para gerar humor, é no mesmo tom que usa em Risa e Otani. Ela coloca todas as suas criações em patamares exatamente iguais.

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Talvez você, leitor, esteja me julgando mentalmente, pensando: “por que ela está teimando tanto com uma personagem trans?”. A resposta é simples: porque isso não está em nenhum lugar que deveria estar. O Japão publica obras yaoi e yuri, onde transgêneros podem muito bem entrar, entretanto, para essa informação chegar até o leitor, ele precisa querer, aceita e procurar. Exercício mental: quantos personagens trans já estiverem em um shoujo/josei/shounen/seinen que você tenha lido? Não vale responder “Kuranosuke”, de Kuragehime, ele não é trans; ele é um “cross-dressing”, em nenhum momento do mangá ele expressa sua vontade de mudar de sexo, porque: ele não quer. Não é só com trans, para achar características x e y, o consumidor precisa ser específico; pegar a primeira obra que estiver a frente não é sinônimo de diversidade.

Sei que o público que acompanha minhas resenhas de volume deveria estar esperando algo mais comum e não focar em uma única personagem. Acontece que quando comecei a escrever sobre ela, não consegui mais parar; realmente me apaixonei pela Seiko, amei como Aya Nakahara soube introduzi-la e como ela acaba sendo uma chave importante para que Risa comece a se aceitar. Acredito que o volume seja bem isso: complexos que deveriam ser aceitados, não pelas pessoas a volta, mas pelas personagens em si.

O material desta resenha foi adquirido pela redatora.


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10 comentários sobre “Seiko Kotobuki: a personagem transgênero de Lovely Complex

  1. Achei super interessante a personagem : ) muito fofo o Otani dizendo com toda a delicadeza que não rolaria nada entre os dois, Nakahara foi super feliz na abordagem. O volume todo é maravilhoso, gostando muito desse mangá!

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  2. Que post fantástico e lindo, Miyuki! Só ressalta ainda mais toda a importância de LoveCom pra demografia shoujo e porque todos amamos esse mangá. Agradeço sempre a Panini por ter trazido ao Brasil! >-<

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  3. Existe um motivo pra eu gostar tanto dos seus textos e os de seu namorado: vocês escrevem também com o coração. Vocês sabem ler os sentimentos das obras e colocarem em suas resenhas e por isso acho os textos de ambos sensacionais. Por favor, não parem. Não deixem de fazer textos assim. Amo o Chunan e amo o Shoujo on. Acho que são textos e conteúdo que fazem a diferença entre esse nicho. Obrigado por esse texto maravilhoso e aguardo o do volume 4!

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  4. Moro no Japão e mesmo aqui ainda é um tabu muito grande se falar de personagens transsexuais. Existe uma discussão muito grande até em One Piece quando o Eiichiro Oda coloca algum personagem diferente. Lovely Complex é um mangá que excede tudo que pode e mostra nesse volume 3 que é digno de entrar em uma lista dos 10 shoujos mais importantes da história e sem nenhum tipo de exagero. Seu texto ficou excelente e contou exatamente tudo que eu penso quando li o mangá originalmente. Tenho a série em japonês e meu noivo compra para mim no Brasil, já que volto praí no ano que vem. Conheci seu site por esse texto e pretendo continuar acompanhando. Beijinhos.

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  5. Ainda não vi LoveCon, mas depois dessa resenha to qse indo procurar o mangá ou anime só pra conhecer essa personagem 🙂

    Realmente, qse não há personagens trans nos animes/mangás
    Quando há homossexuais em obras que não são Yaoi/Yuri eles tendem a serem mostrados com exagero, espalhafatosos, apenas para gerar humor… São poucos os que fogem disso (e agora só consigo lembrar do Akise de mirai Nikki )
    Agora personagens trans são ainda mais raros.
    Atualmente estou lendo Tokyo Ghoul RE e lá há uma personagem trans que – não foi dito explicitamente portanto não tenho certeza se – fez a cirurgia de troca de sexo
    É certo que fez retirada de mamas. É mostrado num cap a cicatriz
    E quando vi esse cap em especial, e que me dei conta que era uma trans e não crossdressing, fiquei admirada com a personagem
    Foi a primeira vez de ver uma personagem assim
    Conforme fui lendo deu pra entender um pouco do motivo da troca – não foi por se identificar com o sexo oposto. Parece ter sido por não aceitar ser fraca. Para ela, um homem é mais forte e ter trocado lhe deu confiança para seguir em frente.
    E na série ela ainda não busca ou tem relacionamento amoroso com ninguém
    E atualmente se esforça para tornar-se forte.
    Leio cada cap torcendo para que ela supere seja lá o que aconteceu, que fique forte como ela deseja e que encontre seu lugar – sim, me apeguei kkkkkk

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  6. Pingback: Checklist – Panini: Agosto de 2016 | ChuNan! - Chuva de Nanquim

  7. Eu até chorei na parte que a Koizume tenta defender a Seiko e em seguida ela começa a chorar e se perguntar se não é estranha e se o Otani teria nojo ou ódio dela, e ai ele chega e conforta ela. Puts! que cena mais legal.
    Nas primeiras paginas quando descobrem que ela é trans e tem vários diálogos problemáticos e transfóbicos e todos ficam fazendo piadinha do Otani que tinha sido engando, eu fiquei pensando que esse tema seria mais uma vez tratado dessa forma, como uma grande galhofa transfobica, tava até triste pois já tinha ficado decepcionado com o discurso do Otani pro Haruka dizendo que garotos tinham que proteger as garotas e garotas tinham que ser protegidas (zzzzzz), e isso seria a outra situação que faria eu gostar menos do mangá, mas ai vai desenvolvendo e você vai vendo como a Koizume vai se enxergando na Seiko e se questionando sobre o que é ser uma garota, e no final eles entendem melhor a Seiko e aceitam ela, e apropria Koizume se aceita melhor, no final quando vai ela buscar o Otani e trás ele nos braços de volta pra sala de certa forma até contradiz todo o discurso do Otani sobre proteção e quem deve ser protegido.
    Sério, a cada volume me apaixono mais por esse mangá e crio mais admiração pela a autora.

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